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Como elaborar o PCN e PRD do seu cartório

O PCN (Plano de Continuidade de Negócios) e o PRD (Plano de Recuperação de Desastres) são os documentos que definem como o cartório vai continuar operando quando algo der errado e como vai voltar ao normal depois. Ransomware, queda de sistema, falha de servidor, desastre natural, perda de pessoal-chave, falha de fornecedor: o plano precisa cobrir tudo isso.

O item 2.5 da Etapa 2 do Provimento 213 exige a formalização desses planos com quatro elementos obrigatórios. Sem todos eles, a declaração de conclusão da etapa não pode ser emitida.

PCN e PRD: um documento ou dois?

O provimento permite que sejam documentos separados ou integrados, desde que contenham todos os elementos obrigatórios. Na prática, para a maioria das serventias, faz mais sentido um documento único dividido em duas partes:

  • PCN: foca em manter as operações críticas funcionando durante o incidente. Como continuar atendendo, como manter os atos registrais acessíveis, como operar em modo degradado;
  • PRD: foca em restaurar o ambiente tecnológico ao estado normal. Como recuperar o sistema, restaurar backups, reconstruir a infraestrutura.

O PCN responde “como sobrevivemos enquanto o problema não é resolvido” e o PRD responde “como resolvemos o problema e voltamos ao normal”.

Os 4 elementos obrigatórios

O provimento exige que o documento contenha, cumulativamente:

  1. Identificação e avaliação estruturada de riscos
  2. Definição objetiva das medidas de mitigação
  3. RTO e RPO compatíveis com a classe da serventia
  4. Medidas de curto prazo (até 30 dias) e médio prazo (até 90 dias)

Vamos detalhar cada um.

1. Identificação e avaliação de riscos

O primeiro passo é listar os riscos que podem interromper as operações da serventia e avaliar cada um em termos de probabilidade e impacto.

Riscos comuns a todas as serventias

RiscoDescriçãoExemplo de cenário
Queda de energiaInterrupção no fornecimento elétricoQueda prolongada sem gerador, nobreak esgotado
Falha de conectividadePerda dos links de internetDois provedores fora simultaneamente
Ataque cibernéticoRansomware, invasão, phishingRansomware criptografa dados e exige resgate
Falha de sistemaSistema de gestão fora do arAtualização com erro, bug crítico, indisponibilidade do provedor SaaS
Desastre naturalIncêndio, inundação, tempestadeAlagamento do escritório, incêndio na sala de equipamentos
Perda de pessoal-chaveAfastamento do titular, do DPO ou do técnico responsávelAcidente, doença, desligamento sem transição
Falha de fornecedorFornecedor de tecnologia encerra contrato ou sai do mercadoProvedor do sistema cancela o serviço
Pandemia/crise sanitáriaImpossibilidade de acesso físico ao cartórioLockdown, quarentena obrigatória

Riscos adicionais para serventias com servidor local

RiscoDescriçãoExemplo de cenário
Falha de hardware do servidorDisco, memória, placa-mãe, fonteDisco rígido queima, servidor não liga
Corrupção de banco de dadosDados corrompidos por falha elétrica ou softwareDesligamento abrupto corrompe tabelas do banco
Furto de equipamentosServidor ou backup local roubadosArrombamento do escritório no final de semana
Perda do técnico de TIÚnico técnico que conhece o servidor saiTécnico terceirizado encerra contrato sem documentação
Falha de climatizaçãoAr-condicionado da sala de servidores paraServidor superaquece e desliga

Como avaliar

Para cada risco, atribua uma classificação de probabilidade e impacto. Uma matriz simples funciona:

Probabilidade:

  • Alta: já aconteceu ou é esperado que aconteça (ex.: queda de energia em regiões com fornecimento instável)
  • Média: possível, mas não frequente
  • Baixa: improvável, mas não impossível (ex.: incêndio)

Impacto:

  • Crítico: interrupção total das operações, perda de dados, impossibilidade de prestar o serviço
  • Alto: interrupção parcial, degradação significativa do serviço
  • Médio: inconveniente operacional, sem perda de dados
  • Baixo: impacto mínimo, resolvido rapidamente
RiscoProbabilidadeImpactoPrioridade
Queda de energiaAltaAltoCrítica
RansomwareMédiaCríticoCrítica
Falha de conectividadeMédiaAltoAlta
Falha de sistema (SaaS)BaixaCríticoAlta
Falha de hardware (on-premise)MédiaCríticoCrítica
Desastre naturalBaixaCríticoMédia
Perda de pessoal-chaveMédiaAltoAlta
Falha de fornecedorBaixaCríticoAlta

Adapte a tabela à realidade da sua serventia. Um cartório em região com enchentes frequentes vai classificar “desastre natural” com probabilidade maior do que um cartório no centro de São Paulo.

2. Medidas de mitigação

Para cada risco identificado, definir o que será feito para reduzir a probabilidade ou o impacto. A mitigação acontece antes do incidente.

RiscoMedida de mitigaçãoStatus
Queda de energiaNobreak com 30 min de autonomia, plano de contingência energética, notebooks de contingênciaImplementado
RansomwareBackup off-site automatizado, antivírus em todas as estações e servidores, treinamento contra phishing, segmentação de redeEm andamento
Falha de conectividadeDois links de provedores diferentes, roteador 4G/5G de contingênciaImplementado
Falha de sistema (SaaS)SLA contratual com o provedor, verificar redundância do provedor, procedimento para operação manual temporáriaVerificar SLA
Falha de hardware (on-premise)Contrato de suporte com SLA, peças de reposição críticas, backup off-siteEm andamento
Desastre naturalAVCB, extintor, seguro patrimonial, backup off-site em localidade diferenteImplementado
Perda de pessoal-chaveDocumentação de procedimentos, pelo menos duas pessoas capacitadas para cada função crítica, senhas em cofreParcial
Falha de fornecedorCláusulas contratuais de portabilidade e reversibilidade (item 1.8 do provimento), backup dos dados em formato abertoVerificar contratos

A coluna “Status” ajuda a acompanhar o que já está feito e o que ainda precisa ser implementado. Esse acompanhamento pode ser feito no SIG Virtual, que permite registrar planos de ação com responsáveis, prazos e status.

3. RTO e RPO

O provimento define parâmetros de RTO e RPO por classe da serventia:

ClasseFaturamento semestralRPO (perda máxima de dados)RTO (tempo para restaurar)
Classe 3Acima de R$ 500 mil4 horas8 horas
Classe 2R$ 100 mil a R$ 500 mil12 horas24 horas
Classe 1Até R$ 100 mil24 horas24 horas

RPO (Recovery Point Objective): quanto tempo de dados você aceita perder. Se o RPO é 4 horas, o backup precisa rodar no mínimo a cada 4 horas. Se der um desastre, você perde no máximo 4 horas de trabalho.

RTO (Recovery Time Objective): quanto tempo o sistema pode ficar fora do ar. Se o RTO é 8 horas, a serventia precisa ser capaz de restaurar a operação em até 8 horas após o incidente.

Como garantir o RPO

  • Sistema SaaS: verificar com o provedor qual a frequência de backup e se atende ao RPO da classe. A maioria dos provedores SaaS faz backups com frequência superior à exigida. Solicitar documentação;
  • Servidor local: configurar backup automatizado com frequência compatível com o RPO. Para Classe 3 (RPO de 4 horas), isso significa backup incremental a cada 4 horas no máximo. O backup precisa estar off-site, não apenas no mesmo local do servidor.

Como garantir o RTO

  • Sistema SaaS: o RTO depende principalmente do provedor. Verificar o SLA contratual e o histórico de disponibilidade. A contingência da serventia se resume a ter conectividade (link secundário, 4G/5G) e estações funcionando;
  • Servidor local: o RTO depende da serventia. Considerar: tempo para diagnosticar o problema, tempo para substituir hardware (se necessário), tempo para restaurar o backup, tempo para verificar integridade e retomar o atendimento. Para cumprir um RTO de 8 horas com servidor local, a serventia precisa ter peças de reposição ou contrato de suporte com SLA compatível.

Documentando no plano

Para cada processo crítico da serventia, registre:

ProcessoRPO alvoRPO atualRTO alvoRTO atualLacuna
Registro de atos4h4h (backup a cada 4h)8h~6h (estimado)OK
Emissão de certidões4h4h8h~6hOK
Atendimento ao público8h~2h (contingência com notebook)OK

Se houver lacuna entre o alvo e o atual, registre o plano de ação para fechar essa diferença.

4. Medidas de curto e médio prazo

O provimento exige que o plano preveja ações em dois horizontes temporais:

Curto prazo (até 30 dias após o incidente)

São as ações imediatas de resposta. O que acontece nas primeiras horas e dias:

Nas primeiras horas:

  • Identificar e classificar o incidente;
  • Ativar o plano de contingência aplicável (energética, conectividade, etc.);
  • Comunicar o titular da delegação;
  • Se o incidente for crítico, comunicar a Corregedoria (meta de 24 horas);
  • Se envolver dados pessoais, avaliar necessidade de comunicação à ANPD;
  • Conter o incidente (isolar sistemas afetados, bloquear acessos comprometidos).

Nos primeiros dias:

  • Ativar operação em modo degradado se necessário (atendimento manual, notebooks, 4G/5G);
  • Iniciar recuperação do ambiente (restauração de backup, substituição de hardware);
  • Comunicar a equipe sobre o status e os procedimentos temporários;
  • Registrar todas as ações tomadas, decisões e comunicações;
  • Se o atendimento estiver suspenso, comunicar o público (aviso na porta, redes sociais, telefone).

Até 30 dias:

  • Concluir a restauração do ambiente tecnológico;
  • Verificar integridade dos dados restaurados;
  • Retomar a operação normal;
  • Documentar o incidente completo: cronologia, causa raiz, impacto, ações tomadas, dados afetados.

Médio prazo (até 90 dias após o incidente)

São as ações de consolidação e melhoria:

  • Analisar a causa raiz do incidente e implementar correções definitivas;
  • Revisar o PCN e PRD com base nas lições aprendidas;
  • Atualizar a análise de riscos se o incidente revelou riscos não mapeados;
  • Reforçar as medidas de mitigação que falharam ou se mostraram insuficientes;
  • Conduzir treinamento com a equipe sobre os procedimentos revisados;
  • Produzir relatório final do incidente para arquivo e eventual fiscalização.

Estrutura recomendada do documento

Reunindo tudo, o documento pode seguir esta estrutura:

  1. Objetivo e escopo
  2. Responsabilidades (quem ativa o plano, quem coordena a recuperação, quem comunica a Corregedoria)
  3. Processos críticos da serventia (registro de atos, emissão de certidões, atendimento ao público, integração com centrais eletrônicas)
  4. Análise de riscos (tabela de riscos com probabilidade e impacto)
  5. Medidas de mitigação (tabela com medidas e status)
  6. Parâmetros de RTO e RPO (por processo crítico, com alvo e situação atual)
  7. Procedimentos de resposta por cenário (ransomware, falha de energia, falha de sistema, desastre natural, etc.)
  8. Medidas de curto prazo (até 30 dias)
  9. Medidas de médio prazo (até 90 dias)
  10. Testes e simulações (periodicidade, o que testar, como registrar)
  11. Contatos de emergência (Corregedoria, ANPD, fornecedores, suporte técnico)
  12. Histórico de revisões

Procedimentos de resposta por cenário

Para cada risco prioritário, vale detalhar o procedimento específico. Aqui estão os mais relevantes para cartórios:

Cenário: Ransomware

  1. Desconectar imediatamente o equipamento afetado da rede (cabo e Wi-Fi);
  2. Não pagar o resgate;
  3. Verificar se outros equipamentos foram comprometidos;
  4. Desligar equipamentos não afetados como medida preventiva, se necessário;
  5. Comunicar o responsável técnico e o titular;
  6. Comunicar a Corregedoria (incidente crítico);
  7. Avaliar se houve comprometimento de dados pessoais (comunicar ANPD se positivo);
  8. Acionar o suporte técnico e/ou empresa de resposta a incidentes;
  9. Restaurar os sistemas a partir do backup off-site mais recente;
  10. Verificar integridade dos dados restaurados antes de retomar o atendimento;
  11. Investigar o vetor de ataque (como o ransomware entrou) e corrigir a vulnerabilidade;
  12. Documentar o incidente completo.

Cenário: Falha de sistema (SaaS)

  1. Verificar se o problema é local (conectividade) ou do provedor (sistema indisponível);
  2. Se for local, ativar link secundário ou 4G/5G;
  3. Se for do provedor, contatar o suporte e registrar o chamado;
  4. Ativar operação em modo degradado: atendimento manual, registro dos atos em formulário provisório;
  5. Comunicar o público sobre a situação;
  6. Se a indisponibilidade ultrapassar o RTO, comunicar a Corregedoria;
  7. Quando o sistema voltar, lançar os atos registrados manualmente;
  8. Documentar o incidente e o tempo de indisponibilidade.

Cenário: Falha de hardware do servidor (on-premise)

  1. Diagnosticar o problema (disco, memória, fonte, placa-mãe);
  2. Acionar o suporte técnico com SLA compatível com o RTO;
  3. Se houver peça de reposição disponível, iniciar a substituição;
  4. Se não houver, avaliar se é possível operar temporariamente em outro equipamento;
  5. Restaurar o backup mais recente no novo hardware ou no hardware reparado;
  6. Verificar integridade do banco de dados;
  7. Testar o sistema antes de retomar o atendimento;
  8. Documentar o incidente, incluindo tempo de indisponibilidade e dados perdidos (se houver).

Testes e simulações

O provimento exigirá testes periódicos nas etapas seguintes, mas a recomendação é começar desde já.

O que testar:

  • Restauração de backup completo: verificar se o backup pode ser restaurado e se os dados estão íntegros. Medir o tempo de restauração e comparar com o RTO;
  • Simulação de operação em modo degradado: operar com notebooks e 4G/5G por um período e verificar se é viável;
  • Simulação de comunicação de incidente: testar o fluxo de comunicação (quem avisa quem, em qual ordem);
  • Teste de failover de conectividade: desligar o link principal e verificar a comutação.

Registrar cada teste com:

  • Data, cenário testado, participantes;
  • Resultado, tempo medido, problemas encontrados;
  • Ações corretivas necessárias;
  • Assinatura do responsável.

Versão impressa

Assim como o plano de contingência energética, o PCN e PRD devem ter uma versão impressa acessível. Em um cenário de ransomware, por exemplo, os computadores podem estar inacessíveis. A versão impressa deve incluir pelo menos os procedimentos de resposta, os contatos de emergência e os parâmetros de RTO/RPO.

Erros comuns

  • Plano genérico copiado da internet: a análise de riscos precisa refletir a realidade da serventia. Um cartório de registro de imóveis em cidade pequena tem riscos diferentes de um tabelionato de notas em capital;
  • RTO e RPO sem lastro: definir RTO de 8 horas sem ter backup off-site, sem contrato de suporte e sem peça de reposição não funciona. Os parâmetros precisam ser alcançáveis com os recursos que a serventia tem;
  • Ignorar a operação manual: quando o sistema cai, os atos não param de acontecer. O plano precisa prever como registrar atos manualmente e como lançar no sistema depois;
  • Não testar a restauração de backup: ter backup não significa que ele funciona. Testes de restauração são obrigatórios;
  • Deixar o plano na gaveta: o plano precisa ser conhecido pela equipe. Se o titular sofre um acidente e ninguém sabe o que fazer, o plano falhou.

Referências


O SIG Virtual ajuda serventias a estruturar planos de continuidade, registrar análises de riscos e acompanhar planos de ação com responsáveis e prazos. Se o seu cartório precisa elaborar o PCN e PRD para cumprir o Provimento 213, faça o teste gratuito e veja como organizar esse processo. Confira nossos planos e preços ou entre em contato.

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